Aí vai a segunda parte do artigo do Fernando Chaib - Let vibrate: Um breve panorama sobre o vibrafone na música do século XX. Originalmente publicado na Revista Opus, da ANPPOM - a sigla significa Associação Nacional de Pesquisa e Pós Graduação em Música, está sendo publicado em partes aqui no Netmúsicos. Para ler o artigo na íntegra, clique aqui.
Definição de Vibrafone

Uma descrição consagrada desse instrumento na literatura internacional especializada encontra-se no The New Grove Dictionary of Music and Musicians , que, apesar de longa, traduzo e transcrevo para efeitos de comparação:
Metalofone da família dos instrumentos de percussão de lâminas. Foi desenvolvido nos Estados Unidos, chamado por vezes de Vibraharp (é classificado com um idiofone, conjunto dos instrumentos de percussão de lâminas). As notas são produzidas pela vibração das lâminas de metal amplificadas por um tipo especial de ressonador ou eletronicamente, produzindo um som pulsante. As lâminas, arranjadas como um teclado, são suspensas por cordas em seus pontos nodais. Estão dispostas no mesmo nível (em contraste com as “notas pretas” do xilofone), facilitando a manipulação de três ou mais baquetas. As baquetas utilizadas normalmente são de borracha, por vezes revestida com lã podendo, em alguns casos, essas texturas influenciar na coloração do som. O som produzido pelas lâminas é de longa duração; o instrumento é equipado com um artifício de sustentação sonora controlado pelo pé, funcionando similarmente como o pedal de sustentação sonora do piano (a pressão sobre o pedal alivia o abafador de feltro; em modelos mais antigos as notas ressoavam sem intervenção, sendo abafadas pela pressão realizada pelo pedal). A extensão usual do vibrafone de concerto compreende 3 oitavas (F – F´´´); instrumentos de 4 oitavas (C – C´´´´) começaram a estar disponíveis a partir do último quarto do século XX, e passaram a ser comuns principalmente no continente europeu. […] A característica particular do vibrafone é o seu vibrato único. O efeito de ressonância dos tubos é obtido pelo repetido abrir e fechar da parte de cima dos mesmos por um mecanismo giratório de ventoinhas (discos planos de metal). Estes discos estão acoplados a um eixo que gira por força motriz. A repetida ‘interrupção’ do som causada faz emergir uma série de pulsações, que têm a sua velocidade condicionada ao giro do eixo (BLADES; HOLLAND, 2001, p. 521-523).

Já na literatura especializada em língua portuguesa, encontramos a seguinte definição de vibrafone no Dicionário de Percussão , obra de referência na área:
Nome do instrumento criado nos Estados Uniwdos em 1921. É composto por uma série de ‘lâminas’ de metal afinadas, colocadas numa estrutura alta que permita ao “instrumentista” tocar em pé, dispostas como um teclado de piano. A extensão padronizada pela indústria é de três oitavas entre ‘F3′ e ‘F6′. Possui mecanismo para abafar a vibração das ‘lâminas’ por meio de uma barra coberta com feltro que se encosta a extremidade de todas as teclas ao mesmo tempo, acionadas por um pedal. Tem tubos ‘ressonadores’, em cuja extremidade superior passa um eixo de metal com placas circulares na entrada de cada tubo. Esse eixo é girado por meio de polias movimentadas por um pequeno motor elétrico colocado debaixo do teclado. O giro do eixo faz que as placas também girem na entrada dos tubos, deixando-os alternadamente fechados e abertos conforme a velocidade dadas pelo motor às polias. Quando a tecla é percutida, estando o abafador desencostado do teclado e o mecanismo do eixo funcionando, o efeito conseguido é de uma nota com vibrato , resultado do rápido abrir e fechar dos tubos. (FRUNGILLO, 2002, p. 382).
Ao analisar estes dois textos permitimo-nos acrescentar maiores informações a respeito deste instrumento, contribuindo para uma definição teórica mais detalhada. Quando os autores se referem ao material utilizado para a fabricação das lâminas, seguimos não sabendo exatamente do que elas são feitas já que, observando a Tabela Periódica de Elementos Químicos, percebemos que existem mais de vinte tipos de metais (sem considerarmos os de transição, onde o número passaria para mais de sessenta). Sabemos que originalmente o vibrafone possuía lâminas de aço (também um tipo de metal) mas que, em pouco tempo, este material foi substituído por alumínio. A informação mais atual indica que as lâminas são fabricadas a partir de uma liga metálica [7] onde o alumínio é a base da mistura. Nos dois textos a referência à estrutura física do vibrafone é vaga, não estando sequer especificada a altura do instrumento. As lâminas do vibrafone são dispostas da nota mais grave para a mais aguda, de modo diatônico (notas naturais) e pentatônico (notas acidentes) como um teclado de piano (sem o desnível da escala pentatônica para a diatônica), sobre um suporte em forma de trapézio, horizontal e paralelo ao chão, apoiado por quatro barras (uma em cada extremidade do “trapézio”) com rodas em sua parte inferior. A altura deste suporte normalmente compreende o eixo do corpo de um indivíduo de média estatura. Hoje em dia existem vibrafones fabricados com altura regulável, permitindo que o intérprete disponha-o na altura desejada.

Ao contrário do que afirma Frungillo, pela terminologia em música utilizada no Brasil, o correto seria afirmar que a extensão das três oitavas do vibrafone compreende do Fá2 ao Fá5. Sabemos por exemplo que até a data de publicação da edição deste Dicionário de Percussão já existiam modelos de vibrafone fabricados pela indústria com uma extensão maior do que a afirmada pelo autor brasileiro (três oitavas e meia, do Dó2 ao Fá5 e de quatro oitavas, do Dó2 ao Dó6); Os tubos ressonadores estão dispostos, cada um, sob uma lâmina e afinados respectivamente conforme a afinação das mesmas. É importante deixar claro que o giro do eixo que trespassa a parte superior dos tubos, onde estão instaladas as placas circulares, é um movimento contínuo; A informação sobre o posicionamento do motor não menciona exatamente onde ele se encontra instalado. A posição do motor do vibrafone está padronizada pela indústria, localizando-se por baixo das lâminas mais agudas da escala diatônica (geralmente as duas últimas), na parte frontal do instrumento em sua extremidade esquerda (visto de frente pelo intérprete). O mecanismo de manipulação do motor (regulador de velocidade) quando não se encontra acoplado ao motor situa-se na mesma extremidade, mas na parte superior do suporte. Existem diferentes modelos de vibrafone onde o sistema elétrico poderá ser analógico ou digital; O som com efeito de vibrato pode ser extraído também com o movimento lento das placas circulares, e não necessariamente apenas com o “rápido abrir e fechar dos tubos” , como afirma Frungillo; O autor brasileiro não é específico em relação à designação aplicada ao material que é percutido para se extrair o som característico do vibrafone, utilizando diferentes expressões como ‘lâminas’ e ‘tecla’ para denotar a mesma coisa.
Ao aproveitar a base textual de Frungillo, acrescentando os pontos expostos no parágrafo anterior (que pensamos serem pertinentes para uma melhor compreensão do instrumento enquanto objeto), procuramos dar a nossa contribuição para chegarmos a um significado teórico mais fiel a respeito do vibrafone:
Instrumento da família da percussão, composto por lâminas com altura definida, desenvolvido em 1921 nos Estados Unidos. Possui uma série de lâminas retangulares feitas de alumínio em liga especial com afinação temperada. Suas medidas [8] compreendem entre 37cm e 16cm de comprimento, 6cm e 3cm de largura, das mais graves às mais agudas, respectivamente. Essas lâminas são suspensas lado a lado por uma corda que as trespassa em seus pontos nodais, da nota mais grave à mais aguda (proporcionalmente diminuindo de tamanho), de modo diatônico (notas naturais) e pentatônico (notas acidentes) como um teclado de piano (mas sem o desnível que há entre as teclas brancas e pretas). Estão dispostas sobre uma estrutura física composta por quatro barras que as sustentam (duas para as lâminas em modo pentatônico e duas para as lâminas em modo diatônico), formando a figura geométrica de um “trapézio” horizontal e paralelo ao chão. Esta estrutura física se apóia sobre quatro esteios (um em cada extremidade do “trapézio”) com rodas em sua parte inferior. A altura da superfície do instrumento normalmente compreende o eixo do corpo humano de um indivíduo de média estatura (já existem no mercado alguns modelos fabricados com altura regulável, permitindo que o intérprete nivele-o como desejar). Possui um mecanismo abafador composto por uma barra retangular coberta com feltro que se estende da lâmina mais grave à mais aguda, encostando em suas extremidades ao mesmo tempo. Esse mecanismo, ao ser acionado por um pedal, desencosta das lâminas permitindo que as mesmas vibrem por mais tempo, prolongando o seu som. O pedal situa-se no centro do instrumento, rente ao chão, suspenso por uma fina haste de metal que o une até a barra retangular. Cada lâmina tem disposta sob si um tubo ressonador correspondente à sua afinação. Na extremidade superior de cada tubo existe uma placa de metal (alumínio ou aço) em formato circular acoplada a um eixo cilíndrico que trespassa todos os tubos de uma só vez. Esse eixo é girado por meio de polias movimentadas por força motriz (AC – DC) em movimento contínuo, cuja velocidade pode ser regulada a critério do intérprete, – a posição do motor do vibrafone é padronizada pela indústria, e localiza-se abaixo das lâminas mais agudas da escala diatônica (geralmente as duas últimas), na parte frontal do instrumento em sua extremidade esquerda (visto de frente pelo intérprete) – o giro do eixo faz com que as placas também girem na entrada dos tubos, deixando-os alternadamente fechados e abertos conforme a velocidade dada pelo motor às polias. Este sistema motriz pode ser realizado através da manipulação analógica ou digital, dependendo do modelo do instrumento. O som das lâminas é extraído, geralmente, pelo ataque de baquetas com “cabeças” de borracha revestidas com lã, ainda que existam outros meios de extração sonora do instrumento. Quando as lâminas são percutidas, estando o abafador desencostado das mesmas e o mecanismo do eixo cilíndrico funcionando, consegue-se extrair o efeito de vibrato. A extensão padronizada pela indústria é de três oitavas entre Fá2 e Fá5. No entanto já existem modelos no mercado, fabricados por algumas companhias, com uma extensão maior podendo atingir três oitavas e meia, do Dó2 ao Fá5 ou 4 oitavas, do Dó2 ao Dó6. Toda a estrutura física do vibrafone (barras, esteios, pedal) pode ser confeccionada com diferentes materiais (madeira, metal, plástico, carbono) dependendo do modelo do fabricante.
Notas
[7] Segundo a fábrica brasileira de instrumentos musicais Jog Music , trata-se de um Alumínio em “liga especial”.
[8] Esta medida refere-se ao modelo padrão com extensão de três oitavas, utilizado em salas de concerto. Poderão, entretanto, sofrer pequenas alterações dependendo do fabricante e do modelo do instrumento.
Fernando Chaib é Mestre em Música/Performance pela Universidade de Aveiro, onde atualmente cursa o Doutorado, e Bacharel em Instrumento/Percussão pela Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”. Participou de vários grupos musicais, destacando-se no Brasil os grupos PIAP e Durum Percussão Brasil e em Portugal o Performa Ensemble. Toca como músico convidado em diversas orquestras sinfônicas no Brasil e Portugal, entre elas OSESP, OSUSP, OSTNCS e vem ministrado cursos e master classes no Brasil, Portugal e Venezuela. Foi vencedor de concursos e prêmios no Brasil e Itália, realizando concertos também naquele país. Suas atividades artísticas incluem ainda a direção musical de espectáculos de teatro na cidade de São Paulo e a realização de arranjos e composições musicais estreados e executados pelos grupos de percussão Durum Percussão Brasil e Grupo PIAP , com difusão pela Rádio Cultura de São Paulo. Sua discografia inclui seis CD´s, registrando peças camerísticas e com orquestra.








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