Quem acompanha o Netmúsicos lembra da entrevista sobre o novo trabalho do Grupo Durum, cedida gentilmente pelo Fernando Chaib. Pois bem, conversa vai, conversa vem, descobrimos que o Fernando fez um excelente artigo sobre o Vibrafone, e está recebendo muitos elogios por ele.
O artigo foi originalmente publicado na Revista Opus, da ANPPOM - a sigla significa Associação Nacional de Pesquisa e Pós Graduação em Música, e nós vamos publicá-lo aqui, separado em partes. Para ler o artigo na íntegra, basta acessar aqui.

Let vibrate: Um breve panorama sobre o vibrafone na música do século XX - Parte I
Dentre os instrumentos musicais emergentes da primeira metade do século XX, o vibrafone recebeu especial atenção de compositores e percussionistas ao protagonizar estudos ligados ao desenvolvimento de meios originais de extração do som e na produção de diversos e inéditos tipos de colorido sonoro. [1] Todas as investigações e, por conseqüência, as obras compostas para este instrumento de percussão contribuíram para que ele recebesse o status de solista, indispensável nos conjuntos de música contemporânea e nos programas dedicados à música do século XX nas orquestras sinfônicas. Desta forma, o vibrafone foi “construindo” o seu espaço no cenário musical erudito, firmando-se como um dos personagens principais dentre os instrumentos de percussão, como afirma Zampronha (2007):
O vibrafone é realmente um dos instrumentos de percussão de maior destaque na música do século XX. Há um repertório importante que inclui o instrumento, um repertório sofisticado, de grande qualidade e virtuosismo. […] Finalmente, acrescentaria que o destaque que tem o vibrafone se completa realmente quando se considera o repertório que há para o instrumento e a qualidade das interpretações. É a união entre um instrumento com as qualidades mencionadas e um ótimo repertório tocado por grandes intérpretes que efetivamente coloca o instrumento inegavelmente em uma posição de grande visibilidade. E, sem dúvida, é isto o que ocorre com o vibrafone no século XX.

Este artigo buscará explanar algumas questões pertinentes para uma compreensão melhor a respeito do papel desempenhado pelo vibrafone na música do século XX. Discorreremos sobre sua origem, exporemos alguns conceitos existentes sobre o instrumento elaborando um texto que condiga de maneira fiel à sua concepção teórica. Introduziremos um breve panorama sobre o desenvolvimento de seu repertório enquadrado na música contemporânea de caráter erudito, o que certamente motivará uma reflexão sobre exploração sonora e tímbrica no instrumento e a continuidade das pesquisas realizadas sobre o mesmo.
Origem do Vibrafone

A origem do vibrafone se dá nos Estados Unidos no início do século XX. Ainda na primeira década desse século a companhia Leedy Manufacturing Company [2] desenvolveu um instrumento chamado Steel Marimbaphone [3] com uma extensão de três oitavas (Fá2 a Fá5). Suas lâminas, feitas de aço, eram côncavas com um desenho curvo nas extremidades, possuindo tubos ressonadores instalados por baixo das mesmas. As notas naturais eram dispostas horizontalmente (paralelas ao chão) enquanto que as notas acidentais dispunham-se na posição vertical (perpendicular ao chão). Em 1916, Herman Winterhoff [4] concebeu a idéia de aplicar o conceito da “vox humana ” baseando-se neste instrumento, iniciando então suas primeiras experimentações com o intuito de criar um efeito de vibrato . Com um motor acoplado ao instrumento rente ao chão e com placas pulsantes ( pulsators ) que faziam um movimento para frente e para trás inseridas no topo dos tubos de ressonância, conseguiu-se extrair um efeito inicial de vibrato . Este instrumento acabou por receber o nome de vibrafone . É verdade que este primeiro modelo iria revolucionar o mecanismo de discos de metal inseridos nos tubos com o intuito de extrair o efeito de vibrato , mas foi logo abandonado por não se apresentar funcional e causar muitos ruídos. A extração do som com o vibrato desejado ocorre no ano de 1921 através de um mecanismo de placas circulares inseridas nos tubos de ressonância do instrumento, movidas por força motriz ligada à eletricidade ( AC – DC ), permitindo a realização de um movimento contínuo. A partir desse novo recurso implementado no instrumento a companhia Leedy Manufacturing Company, em 1921, [5] nomeadamente representada por George Way [6] designa-o com o nome deVibraphone (aqui, o instrumento já possuía todas as lâminas na posição horizontal) . No entanto, este instrumento ainda não possuía um mecanismo que fosse capaz de abafar o som extraído das lâminas, o que caracterizava uma ressonância excessiva. Ou seja, tudo o que se tocava no vibrafone ressoava até o som dissipar-se naturalmente (salvo com a intervenção das próprias baquetas ou das mãos sobre as teclas). Este problema foi solucionado em 1927, quando o percussionista e construtor de instrumentos William “Billy” Gladstone desenvolveu o mecanismo de abafamento das lâminas através de um pedal ligado a uma barra feita de um tipo de material abafador que percorria toda a extensão do vibrafone, encostando-se às pontas das lâminas conforme o pedal era acionado. Em Abril de 1927 a companhia J. C. Deagan, que também desenvolvia pesquisa no mercado sobre instrumentos de percussão feitos de metal (a exemplo do seu modelo de Steel Marimbaphone, Organo Vibrato Harp e Deagan Tower Chimes System ), apresenta um tipo de vibrafone com modificações pertinentes ao modelo Leddy :
Aparência escurecida, timbre misterioso [causado pela substituição das lâminas de aço para lâminas de alumínio], entonação harmônica refinada e, talvez a mais significativa mudança, um mecanismo de abafamento por pedal fixo dando o máximo controle para a expressão dos fraseados, ultrapassando as possibilidades do Vibraphone Leddy(HOWLAND, 1977, p. 84).
A companhia J. C. Deagan atribui-lhe o nome de Vibra-Harp (cuja patente viria apenas em 1930). A partir de então, todos os instrumentos de teclas fabricados com alumínio, sistema de placas circulares e pedal abafador, viriam a ser cópias deste modelo. De fato, todos os instrumentos desta natureza, fabricados a partir de 1927, deixaram de se basear no modelo de vibrafone Leddy. Como conseqüência da concorrência de mercado, a Leddy Manufacturing Company acabaria por abandonar o seu modelo original, incorporando as modificações da companhia J. C. Deagan sem abdicar, contudo, do nome atribuído ao instrumento em 1916 ( Vibraphone ) patenteando-o definitivamente no dia primeiro de Novembro de 1927. O Vibra-Harp pode ser considerado o primeiro modelo de vibrafone (no seu aspecto físico) como o conhecemos hoje. A partir de 1932 nota-se, pela literatura da época, uma simplificação deste nome para Vibraharp (patente nunca oficializada pelo U. S. Patent Office ). Chegamos por tanto à curiosa conclusão de que, baseando-se no instrumento qual o conhecemos hoje, o seu nome correto seriaVibra-Harp (ou Vibraharp ) e não Vibraphone . A questão é que o nome que se tornou popular para fazer referência a este instrumento foi o deVibraphone . Hoje em dia o termo Vibra-Harp ou Vibraharp já está praticamente esquecido sendo utilizado apenas por alguns músicos e entendidos no assunto, pertencentes às gerações mais velhas, ou encontrado em artigos e partituras antigos.
Notas
[1] Alguns compositores como Jorge Antunes, José Manuel López López e Karlheinz Stockhausen utilizam-se com freqüência desta expressão quando se referem a variações sonoras de certo timbre bem como sonoridades específicas deste ou daquele instrumento (ou de um conjunto qualquer de instrumentos).
[2] Empresa com sede em Indianápolis, EUA. Existem na literatura internacional especializada dois nomes atribuídos à mesma empresa na época em questão. O The New Grove Dictionary of Music and Musicians (2001), por exemplo, cita essa empresa como sendo a Leedy Drum Company , enquanto que a referência feita pelo PAS Museum (2006) ou pelo National Music Museum (2006) é de Leedy Manufacturing Company.
[3] Em língua portuguesa: “Marimba de Aço”.
[4] À época vice-presidente da Leedy Manufacturing Company.
[5] Esta data pode variar entre 1922 e 1921 . Segundo Harold Howland, a data mais precisa seria 1921 . (HOWLAND, 1977).
[6] À época, Promotor de Vendas da empresa.
Fernando Chaib é Mestre em Música/Performance pela Universidade de Aveiro, onde atualmente cursa o Doutorado, e Bacharel em Instrumento/Percussão pela Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”. Participou de vários grupos musicais, destacando-se no Brasil os grupos PIAP e Durum Percussão Brasil e em Portugal o Performa Ensemble. Toca como músico convidado em diversas orquestras sinfônicas no Brasil e Portugal, entre elas OSESP, OSUSP, OSTNCS e vem ministrado cursos e master classes no Brasil, Portugal e Venezuela. Foi vencedor de concursos e prêmios no Brasil e Itália, realizando concertos também naquele país. Suas atividades artísticas incluem ainda a direção musical de espectáculos de teatro na cidade de São Paulo e a realização de arranjos e composições musicais estreados e executados pelos grupos de percussão Durum Percussão Brasil e Grupo PIAP , com difusão pela Rádio Cultura de São Paulo. Sua discografia inclui seis CD´s, registrando peças camerísticas e com orquestra.








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