
O Netmúsicos ganhou de presente, com exclusividade, a cobertura da edição deste ano do Mercado Cultural. Confira matéria de Lakshmi Vallim.
Quarta-feira, 03/12
A abertura do evento começou de maneira tímida, no Teatro Castro Alves em Salvador.
Para garantir a pluralidade de culturas que Ruy Cézar- diretor do evento – enfatizou no seu discurso, a programação foi escolhida cuidadosamente. A abertura contou também com a fala de Paulo Henrique, representante da Secretaria de Cultura do Estado, que garantiu o apoio ao evento para os próximos anos, afirmando seu potencial de “Patrimônio Cultural da Bahia”.

Na primeira noite, se apresentaram a dupla israelense PercaDu, com uma percussão cuidadosa e bem executada, e a consagrada Orquestra Rumpillez e Letieres Leite, maestro e compositor da orquestra. A banda soteropolitana formada por metais e percussão toca um repertório swingado, regado da influência negras-africanas.

Quinta-feira, 04/12
Na quinta-feira teve Alejandro Vargas Cuarteto ao piano, acompanhado de bateria, baixo e sax, com o melhor do jazz cubano em harmonias impecáveis. Alguns excessos de notas do saxofonista Ernesto Peréz não comprometeram a maturidade do grupo, que tocou seus arranjos numa execução admirável.
Na sequência, a noite seguiu com o DJ Holandês Mico e sua proposta do Silent Disco, ainda nova no Brasil. O saguão do clássico Teatro Castro Alves virou uma pista de dança, mas todos estavam com fones de ouvido. Para quem está de fora é engraçadíssimo, não se escuta som nenhum e a cena é muito boa de ver, as pessoas dançando aparentemente sem música. Mas basta entrar na pista para fazer sentido: você tem duas opções de canal, um já pronto e um live, e as pessoas podiam dançar em duas freqüências distintas. O DJ fala com o público o tempo todo através dos fones e tem um repertório que varia entre músicas latinas, salsas, “hard house”, punk, eletro e por ai vai. E como disse uma amiga, “assim dá pra dar uma festa de arromba no apartamento sem problemas com a polícia e horários”.
A noite ainda teve o venezuelano C4 Trio e o guitarrista paulista Chico Pinheiro e grupo.
Sexta-feira, 05/12

A noite de sexta teve os sons da Catalunha com Miguel Gil e banda, na sala principal do Teatro Castro Alves. O grupo tem ritmo, simpatia, mas com uma concepção confusa, que cai muito no lugar comum de sons latinos. Em seguida, o sambista Jards Macalé comandou a noite sozinho no palco com seu violão, com letras arrojadas e bem humoradas. O carioca trouxe o clima dos botecos do Rio de Janeiro, com muita prosa e causos durante todo show.
Sábado, 06/12

Foi bela a noite de sábado, ao som de Rajery e banda, de Madagascar, com ritmo africano, voz suave e o instrumento Valiha – uma cítara feita de bambu em forma de tubo, proveniente de Madagascar. É um músico incrível, que superou a perda da mão direita e desenvolve trabalhos em Madagascar com crianças que também não têm mãos, além de dar oficinas de construção de instrumentos e ensinar a arte da Valiha.
Com o sorriso estampado no rosto durante todo o show, suas músicas cantadas em dialeto africano tratam de questões sociais, ambientais, esperança e a luta diária pela sobrevivência, pois segundo ele “a vida cotidiana está cada vez mais difícil”.
Depois teve América Contemporânea, formado por nove competentes músicos de sete países da América do Sul. O grupo é resultado de encontros através do Mercado Cultural dos anos anteriores, e o som traz diversas sonoridades com bons arranjos, explorando o comum e o diverso entre esses países latino-americanos. A simpatia também é elemento comum no grupo, garantindo um show leve e harmonioso.
Domingo, 07/12
Encerrando a programação musical do Mercado Cultural, o domingo contou com André Abujamra e Fernanda Takai.
Abujamra, irreverente como sempre, apresentou-se de turbante, colar vermelho e terno azul turquesa, no seu melhor estilo. Seu show é cheio de momentos surpreendentes, “o infinito não acaba porque nunca começou” frase proferida em um poema-canção. Cantou também uma música com com imagens do álbum de família passando ao fundo. Já com a participação de Luiz Caldas cantaram sobre Pangea. Ele fez uma platéia enorme de bem mais de 1000 pessoas, baterem palmas em diferentes ritmos e com as mulheres falando – ai, e os homens – doeu?
Cantou também para o orixá Logun Edé, com belas imagens étnicas africanas ao fundo. Abu tem um senso de humor maravilhoso, o tempo todo com tiradas, suas músicas são criativas e foram bem executadas na companhia de Marcelo Effori na bateria e Du Moreira no baixo.
A bela Fernanda Takai encantou a platéia com a doçura de sua voz. Seu repertório principal foi de releituras de gravações de Nara Leão, além de músicas que, segundo a cantora, fazem parte de sua memória afetiva musical. Takai trouxe uma nova roupagem para o som. As músicas ficaram mais swingadas e com uma cara mais pop. Ela inovou ao cantar a chatérrima música O Barquinho em japonês, com participação de Abujamra, que entrou para dar uma canja. Ela fez também releituras interessantes como Com Açúcar, Com Afeto de Chico Buarque e Lindonéia de Caetano e Gil, que ainda não tinha sido regravada desde a gravação de Nara Leão. Já a releitura de Debaixo dos Caracóis dos Seus Cabelos não devia ser feita. Nada contra a música, mas ela devia descansar um pouco de tanto que já tocou.
O Mercado Cultural é um evento maravilhoso, que cumpriu seu papel no que diz respeito ao fomento à cultura, com bons shows durante a programação.
Esse ano faltou a feira, um espaço de troca fundamental, com exposição, venda de CDs, instrumentos, contatos e oportunidade de mostrar trabalho de maneira mais continuada durante o Mercado. Nas outras edições anteriores, a feira também trazia apresentações informais, grupos populares, que são importantes para a pluralidade do evento. Esperamos que a feira volte para os próximos anos, já que nesse foi cortada por perda de patrocínio no último instante, assim como foram cortados alguns dos grupos que já estavam selecionados. Dessa maneira os encontros ficaram por conta do pátio do Teatro Castro Alves. Para os artistas e produtores hospedados no Hotel Vitória, o saguão e restaurante do hotel se tornaram extensão do evento, além dos espaços de conferências e oficinas.
Para o grande público, os artistas também estavam disponíveis, foi comum encontrar na platéia grandes nomes que se apresentaram num dia e no seguinte estavam por lá, conferindo os outros shows. Pelos bares da redondeza, como o Sujinho e tradicional Quintal, também não foi difícil de encontrar um ou outro na merecida cerveja. Isso deixa o clima do evento gostoso e mais íntimo.
Que o tema do VIII Mercado Cultural proferido por Hermeto Pascoal “juntar para espalhar” continue no IX Mercado Cultural, até 2009.




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