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Trilha Sonora Eleitoral

Nestas eleições para prefeito e vereador você ouviu muito. Além das promessas de sempre, você sentiu a música ambiente do momento. Me refiro aos jingles eleitorais de dezenas ou centenas de candidatos a vereador e prefeito. Sim, coitados de nós, porque nestas eleições eles não foram poucos. E quantidade não foi qualidade.

Nada além de um nome própio e um número qualquer, com o seu acompanhameno preferido: sertanejo, rap, pagode, axé ou outro estilo mais popularizado. Construído e executado para permanecer grudado como chiclete na sua cabeça até a hora do voto ser consumado.

Não existe uma grande inspiração. Estes jingles são na maioria canções populares que já foram sucesso, transformadas agora em suas versões políticas. Com instrumentação e letras alteradas conforme o candidato e o conhecimento do marqueteiro do partido.

“Nossa amor, aquela nossa música do nosso encontro… é a mesma daquele partido que você vota!”

Se você é músico e teve a oportunidade de participar do processo de composição de algum jingle eleitoral, sabe que o tempo é curto e com certeza a parte artística teve de ser sacrificada a favor de critérios mais “efetivos”, como praticidade e memorização da “letra” da música (ou melhor, números…). Você ganhou uma grana legal, se deu bem (enganou um político, como eles são safados, não?), tudo sem muito trabalho, confesse.

Música de qualidade inferior devido ao tempo curto de produção? Simplicidade para garantir a penetração nas camadas mais pobres da população? Vendeu a alma da sua música… mas ela não tinha alma mesmo, então tudo bem.

O poder da música a favor de um discurso político ou não é uma questão de contexto, uma arma tanto utilizada em tempos de propaganda, de manipulação das massas para um objetivo específico, quanto expressão popular.

Os antigos jingles da época da ditadura militar, por exemplo. Traduziam o sentimento de tensão diante de um panorama hostil, evocando um clima de esperança, de que a vida do brasileiro poderia ser melhorada. Composições que convidavam as pessoas a cantarem juntas. Sim, já existiram bons jingles eleitorais, meu amigo. Verdadeiras canções de fazer barbudo chorar. Mas isto é passado.

Hoje ouvimos a crise de criatividade musical alcançar também os jingles eleitorais.

Não que a trilha sonora eleitoral tenha de expressar todo o plano de governo de um candidato. É que hoje a composição tornou-se tão pobre que no máximo cita algum adjetivo comum, só pra rimar. Nenhuma filosofia embutida.

Nenhuma música que traduza os anseios de uma população, nada que transmita uma idéia de esperança da comunidade. Nada que aponte um futuro ou caminho convincente, que ilustre um ideal humanitário de que um político realmente pudesse almejar e finalmente colocar em prática, com a posse do poder garantida por seus eleitores.

Nada de romance, nada de messianismo, somente um forrózinho safado que bota todo mundo pra dançar, acompanhado de um franguinho distribuído com os famosos cumprimento tapa-nas-costas-vote-em-mim-parceiro, e só. Já que as promessas não colam, o lance é apelar pra diversão, para o pão e circo. “Faz um jingle safado aí, pro povo dançar.”

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